Alguns meses atrás (menos de um ano) a Thai, indivíduo do sexo feminino do qual firmo um relacionamento engraçado, estava pesquisando “clássicos” de gêneros para ler, como ela foi fisgada por Asimov, foi atrás de ficções científicas, enquanto passava as anotações com ela, todas as obras encontradas eu já conhecia, se não por ter lido pelo menos de nome e sinopse. Eis que aparece na lista “Flores para Algernon”, como assim, flores pra quem? Quem é esse rapaz Algernon? De fato é algo que passou batido ao longo dos anos, por um lado uma pena, por outro, que boa experiência conhecer esse livro agora.
Eu “li” o livro duas vezes, a primeira foi pelo olhos da Thai, ela lia e comentava o que estava acontecendo, e como estava sendo a leitura. Então sim, já sabia da história antes de ler de fato, o que pra muitos é um problema, maldito mundo de babacas onde conversar sobre uma obra que alguém não viu é um problema, “meu deus, spoilers”, bando de otários, prestar atenção em como outra pessoa enxerga uma obra é tão importante quanto ver por si mesmo, somos seres coletivos e nossa percepção é moldada pelas percepções de outras pessoas que nos permitimos nos relacionar, sem isso você não tem opinião, permita-se ouvir o que o outro sentiu, principalmente sobre algo que você ainda não conhece, seja humano, não um personagem de internet carajo.
Enquanto ouvia sobre o livro, achei a premissa interessante, por mais que seja simples (a princípio), um cara limitado fica inteligente com uma cirurgia, e tem que lidar com isso, ele é comparado a um rato que passou pelo mesmo experimento (o Algernon) e em algum momento a cirurgia é naturalmente revertida. Se resumimos abruptamente, essa é a história. Mas como deixar isso interessante? O livro inteiro é composto pelos relatos do próprio Charlie Gordon, suas cartas manuscritas, datilografadas ou gravações transcritas, e o meio da mensagem é usar de como essas palavras estão dispostas para ficar claro as mudanças em sua mente e em sua vida. Às palavras quebradas, quase com apenas fonemas, a falta de pontuação, os erros de aprendizado, levam a gente a entender além da prosa os efeitos do experimento.
A segunda vez que li foi agora, finalizado um dia antes de escrever esse conjunto de palavras sequenciais, essas que demonstram que apesar de ter formação superior e usar a cabeça de vez em quando, provavelmente, ainda sou um pouco idiota.
Ainda sobre o modo que o livro é escrito, mostrando a evolução das habilidades de Charlie, essa apresentação cria uma armação agressiva para o final. Como a cirurgia se reverte, tive que acompanhar a volta da simplicidade do texto, isso é TERRÍVEL no final do livro. O sofrimento de ver o Charlie voltando a ser o velho Charlie, e sofrendo com suas habilidades indo embora são tocantes demais, só um psicopata ou fascista termina de ler esse livro sem um nó na garganta e vontade súbita de chorar.
Por favor… por favor… não mim deixe esquecer como le e escreve
Nem mesmo a “volta à inocência” traz algum conforto, nada.
Algo bem interessante ao acompanhar a história é notar como o crescimento intelectual de Charlie faz ele passar por momentos “canônicos” com uma idade mais avançada. Não se tem a informação direta, mas parece que o protagonista tem a “idade mental” de uma criança de uns quatro anos, quando ele passa a entender subtexto, ter noção do que as pessoas em volta querem, passa a ter curiosidade sobre ação e intensão, ele passa a ter interesse no íntimo, no sexo, no relacionamento, e ocorre num turbilhão agressivo. Charlie passa pela “puberdade mental” que deveria durar anos em semanas, confuso com seus sentimentos e vontades. Isso a frente também traz o grande conflito, o “antigo Charlie” ainda existe, e quando a relação com Alice (que já estava na vida dele antes da cirurgia) passa a ser uma questão, a “criança” anterior não consegue admitir aquele conforto quase maternal se tornar algo sexual, o novo Charlie precisa esconder o que quer do antigo, e falha nisso.
A bebida é outro fator determinante, o intelectual usa do álcool, do café e de outras substâncias para equilibrar sua mente (assim como todo ser humano). Mas o álcool em si, quando a quantidade aumenta, trás a criança de volta. De novo, algo canônico para nós, e precisamos saber equilibrar até onde se pode ir, não é um julgamento ou análise moral, é normal gostar de beber e do efeito do álcool no corpo, mas todos sabemos que existe um limite do aceitável e do insuportável (não seja um bêbado chato).
O maior ponto de virada e revolta de Charlie Gordon é perceber que no contexto de pesquisa capitalista que está inserido, ele é uma cobaia, por mais que os cientistas o “reconheçam” como um ser humano, eles ainda precisam “mostrar serviço”. Algernon é um rato de laboratório, nesse caso um roedor de fato, ele passou pela cirurgia antes de Charlie, e os diversos testes evidenciaram sua evolução, no começo ambos têm que “competir” nos testes, trazendo certa frustração ao Charlie ainda no começo do experimento, o que se eleva a uma admiração ao ser revelado que provavelmente esse é o rato mais inteligente do mundo naquele momento. Pois bem, quando os cientistas vão apresentar a pesquisa, o que se mostra é um zoológico, Algernon na gaiola, Charlie na cadeira, ambos sendo observados. Esse é o princípio da revolta, Algernon é “liberto” em meio a todos aqueles observadores, Charlie o recaptura e ambos fogem para uma breve vida longe dos testes, jalecos e perguntas constantes.
Outro grande dilema que o livro traz é a rejeição, no decorrer da história descobrimos que os pais biológicos de Charlie o abandonaram, isso devido às suas limitações. O antigo Charlie não consegue assimilar o que isso significa, então não é um problema, já o novo, ele entende e não consegue culpar os pais por isso. Pesado demais. Esses pontos fazem refletir o quão amoral esse livro é, parece “apenas” um relato, não estou apontando alguma neutralidade, isso não existe. Mas há algum tipo de amoralidade quase cínica em acompanhar os relatos de Charlie. O que deixa ainda mais angustiante.
Flores para Algernon é uma ficção científica que parece rasa no começo, mas faz o que as melhores ficções científicas fazem, discutem o agora, o presente. Angustiam com uma ideia de absurdo incrível e talvez intangível que refletem (e refletem na semântica correta da palavra, como um espelho) o que está à nossa volta.