Ano passado, refazendo a lista de filmes para ver (o que facilita na hora em que temos tempo de assistir a algo), encontramos a referência ao filme Barba Ensopada de Sangue, que ainda não havia sido lançado (isso ocorreu na última semana, em abril de 2026). Independente, ficou na lista.
Recentemente descobri que meu plano de internet me “dá” um livro digital por mês pelo Skeelo, plataforma de e-books e audiobooks. Com isso, vendo a lista de disponíveis e, com certeza, impulsionado pelo lançamento do filme, o Barba Ensopada de Sangue estava presente. Que paulada.
Ficha técnica dos campeões
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Título original: Barba ensopada de sangue.
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Páginas: 424
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Lançamento: 05/11/2012.
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ISBN: 978-85-3592-187-8
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Selo: Companhia das Letras.
No livro, acompanhamos a protagonista sem nome (sim, aqueles casos que não têm nome, e se não têm nome, todos sabemos para quê….).
Ok, sem prepotência, nem todos sabemos o porquê. Em geral, uma personagem não tem nome para que o leitor se projete nela. O fato de o nome não ser dito deixa uma lacuna na cabeça, que fica mais fácil de se preencher com aquilo que mais o indivíduo conhece (mesmo não admitindo), que é ele mesmo.
Essa premissa é ainda mais interessante nesse caso, pois esse protagonista possui uma condição rara chamada prosopagnosia, um distúrbio que faz com que a pessoa seja incapaz (ou tenha extrema dificuldade) em reconhecer rostos, mesmo que sua visão opere perfeitamente. Nesse caso, não reconhece nem ele próprio, constantemente ele precisa se olhar no espelho ou em uma foto para saber como é o seu rosto. Veja como as coisas escalam. Junto com a busca constante de auto’re’conhecimento, a outra busca que ele entra é descobrir o que aconteceu com seu avô (morto antes de seu nascimento), mas todos o reconhecem como muito parecido com ele, quase uma assombração para alguns.
Que papel ele assume? Quem ele é? De acordo com a pessoa que interage, as situações mudam, ele é um professor de natação bacana? Um homem bondoso? Um animal violento e perigoso? Um cara bonito e bom de cama? Um descrente chato? Um pai postiço bobão? Um drogadinho? É curioso porque o seu comportamento de fato não muda, ele é a mesma pessoa sempre, mas quem está ao seu lado, e como o trata, faz com que a situação mude e a cena seja quase que de outra personagem.
O livro tem um ambiente de comunidade isolada de terror folclórico, traços de odisséia grega, junto com um übermensch “super” até demais.
As histórias do passado que permeiam o livro têm uma ambientação de lenda urbana de cidade do litoral. Para quem conhece o tipo de cenário, é possível sentir o gosto de ar salgado na boca pelo jeito que as frases são escritas e as situações descritas. Ser um estrangeiro em uma cidade pequena onde todos se conhecem faz com que todos à volta estejam interpretando uma personagem diferente da real quando se está presente.
O protagonista tem uma missão: descobrir que raios aconteceu com seu avô, e a terceira parte do livro foca bastante numa busca física e aventuresca para tal, isso já no final, onde a tal da barba já está grande demais. Mas ele não é apenas um errante, ele tem o que perder: a cadela Beta (maravilhosa) e seus afetos, mesmo que rápidos, que faz pelo caminho.
Ainda sobre a personagem principal, existe um código moral não dito, em que ele vai ajudar quem está à sua volta, apenas porque sim. Seus pais dizem que ele é bom demais, não dando atenção para ele mesmo. O que se descobre que não é real, ele tem suas ambições e sonhos, e não vai deixar de fazê-los, apenas não é mesquinho para ignorar quem está à sua volta.
Partindo desse princípio, do código moral, e por que ele é super demais até para um nietzschiano, ele não acredita no perdão, e isso é de uma beleza reconfortante. Sua ex-esposa o traiu e casou com seu irmão, ele nunca perdoou ambos, ele admite que ainda os ama, ele os salvaria numa situação crítica. Mas não quer, e não vai, conviver com eles, não é justo com ele ter que ignorar a traição. Ele não quer vingança, ele não vai fazer eles sofrerem, mas também não vai se submeter à situação de achar que tudo está bem.
É isso, quem fez o errado, vai saber pra sempre que errou, e viver com isso. Se vão se importar ou não, não cabe mais à vítima que se afastou. E sim, isso também traz consequências para ela, e tudo bem, a vida não é escrita para ser correta, e também não podemos tomá-la com força e moldar as nossas vontades. Cabe a nós apenas vivermos como se pudéssemos mudar algo, mesmo sabendo que não é verdade.
Determinismo e livre arbítrio, são duas respostas certas para a pergunta errada